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Ah, um post sobre Romeu e Julieta, que coisa romântica, que coisa mais linda! Pode tirar esse seu cavalo da chuva, caro leitor. Deixa eu te informar que Romeu e Julieta é uma das maiores tragédias da história, caso você não saiba. Dois jovens num puta conflito político-familiar que os impede de ficarem juntos, vivendo essa paixão que é obstáculo seguido de obstáculo, fazendo de tudo e mais um pouco pra conseguir um momento que seja a sós no meio de uma guerra tensa. O que de lindo e maravilhosamente fofo tem nisso mesmo?

Romeu e Julieta, como bem sabemos, é uma peça que foi escrita por William Shakespeare lá pelo final do século XVI. O autor se baseou em um conto italiano chamado A Trágica História de Romeu e Julieta, assinado por Arthur Brooke, e que mais tarde foi versado por William Painter. Mas focando em Shakespeare: sua obra é uma tragédia, minha gente!  É um romance trágico – ou seja, em que o amor é selado com a morte. Mas o que eu quero focar aqui é a forma com que a peça foi escrita: numa linguagem ancestral lá de 1600. Abrir o texto original de qualquer obra shakespereana hoje em dia não é mole não, tem que ter uma certa garra pra chegar até o final do livro e, principalmente, pra entender o que diabos aquelas frases-enche-linguiça querem dizer.


E isso nos leva ao tema principal do tópico: o filme Romeo + Juliet, uma adaptação para a telona dessa obra que possui uma ideia inicial muito peculiar. Os diálogos não foram adaptados. Isso mesmo, caro leitor, você pode acompanhar o filme com o livrinho na mão que todas as falas vão ser iguais – e estamos falando de um filme recente aqui, de 1996. Pra coroar, encontramos o famigerado ator Leonardo DiCaprio dando vida ao jovem apaixonado Montéquio. Esses argumentos já são mais que suficientes pra você querer ver o filme, diz ae.

O resultado ficou deveras interessante: um texto clássico em um contexto contemporâneo. As camisas floridas, óculos de sol e carrões compõe o clima atual do filme e batalhas entre Capuletos e Montéquios se tornam muito mais dinâmicas com o uso de pistolas. O espectador cria um vínculo de proximidade quando começa a assistir o filme – tornando-o assim mais simpático, apesar dos diálogos. Ahh, os diálogos.

Na minha singela opinião, como disse lá em cima, é preciso muita coragem pra ler o Romeu e Julieta de Shakespeare. Nós somos sujeitos modernos que vivemos todos os dias permeados de informações vindas de diversos locais ao mesmo tempo. Temos contato com muita informação, queremos agilidade e diversidade, queremos tudo, ao mesmo tempo e agora. Acompanhar um diálogo que se utiliza de frases trabalhadas e que dá voltas e voltas até chegar a conclusão não é a premissa mais popular hoje em dia, vamos combinar. Quer ver? Qual livro você está lendo agora? Tá, qual foi o último que você leu então? Quanto tempo demorou? Você consegue tirar uma tarde só pra ficar lendo um livro? Qual foi a última vez que você trocou um livro pela internet?

É , meu caro, tempos difíceis são esses em que vivemos. A literatura, por mais dinâmica que seja, tem dificuldade de acompanhar o ritmo alucinógeno do nosso mundo contemporâneo. E isso pesa tratando-se dos diálogos do filme.

Mas o grande ponto é a mistura mais do que válida entre novo e velho que o filme faz, abordando um tema tão conhecido – a história Romeu e Julieta -  mas colocando de uma forma nova. Vale a pena assistir por conta desse manejo da forma – porque o conteúdo…

É fato que o filme, num primeiro olhar, trabalha a ideia de romance fofo. Vamos à reflexão, meus caros. Ninguém que pare pra pensar por meio segundo quer um amor impossível. A idéia popular por trás desse amor é absurdamente idealizada e utópica! É o sonho com um acontecimento que parece muito tentador às nossas mentes fragilizadas pelas ilusões que a sociedade nos vende. A história original tem seu sentido banalizado por conta dessa necessidade do meio. É preciso facilitar para que haja entendimento – portanto Romeu e Julieta torna-se simplesmente um amor de adolescência no imaginário popular. Gente, é um conflito absurdo entre famílias afetando a vida dos jovens, não é simplesmente um carinha querendo ficar com uma mina e , opa, não rolou. A simplificação do conteúdo se origina da banalização da fonte. Segundo o pensamento de Theodor Adorno, banaizar é retirar os elementos selvagens da cultura erudita. E assim, vemos imagens lindas do casal se beijando e logo caímos nesse conto do vigário, achando que o filme é um lindo romance.

Assim, o filme trabalha sua forma de maneira mais interessante impossível, mas peca ao ficar nesse raso campo romântico, ao invés de mergulhar fundo na tragédia que realmente é.

4 comentários sobre “Romeu e Julieta: Tragédia banalizada em Romance

  1. É verdade. Acho lastimável que as pessoas tirem suas conclusões sobre as coisas, principalmente sobre os produtos culturais, de forma tão banal e pobre. É preciso analisar, entender sobre do que aquilo de fato trata, o que o autor quer transmitir com aquilo, e também, qual o papel que tal produto assume tanto na sociedade quanto em relação aos outros produtos. Não se pode cair na armadilhar do pré julgamento, ou pior, não se pode cair na armadilha do criticar só pra parecer legal.

  2. Hum, acho que para um blog que se chama “adaptação” eu esperaria termos mais razoáveis em uma crítica.
    Faltou uma coisa para isso ser razoável: você colocar que essa peça é uma “tragédia” é uma interpretação sua e você admitir que o filme de 1996 também é uma interpretação, necessariamente, diferente da sua.
    Você achar que o romance ficou “raso” no filme depende daquilo que você espera do romance na peça. Aparentemente, você não deve ter lido a peça (pelo menos inteira), então a sua interpretação já está condicionada por outros discursos.
    Eu não vi o filme, li um pouco da peça, e não estou defendendo ninguém. Mas o teor taxativo do seu texto incomoda um pouco.
    Só uma sugestão.

  3. Respondendo um comentário acima, é muito engraçado como é fácil diferenciar as tragédias do Shakespeare. Mal chega a ser questão de opinião. Nas tragédias, todo mundo morre do fim. Nas comédias, todo mundo se casa. Romeu e Julieta é quase tragédia shakespeariana por definição!

    Eu ADORO Romeu + Julieta – gosto bem mais, aliás, do que aquela versão semi-hippie bicho-grilo do Zefirelli. Mas discordo da crítica: eu acho que R+J é bem fiel. Afinal, não tem NADA lá que não esteja na peça. Não tem UMA LINHA de adaptação.

    - É porque ReJ foi um predecessor dos romances mundo afora, né. Ele é, primeriamente, um romance. Os Montéquio e Capuleto são praticamente um plano de fundo, completamente secundários aos protagonistas apaixonados e praticamente um pretexto para matá-los.

    Então discordo. Aquilo é exatamente o que o famigerado Guilherme Sacodelanças escreveu. E se ele é raso, bom, então eu não sei mais nada sobre a vida, o universo, e tudo mais.

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